

10 de mar.8 min de leitura

Nota do Editor:
Este artigo apresenta uma abordagem prática, baseada na realidade de campo, dos quatro passos essenciais para alcançar a Rastreabilidade até a Plantação (Traceability to Plantation – TTP) nas cadeias de suprimentos de óleo de palma — um requisito cada vez mais crítico para certificação, acesso a mercados e conformidade com regulamentações emergentes, como o Regulamento da União Europeia sobre Desmatamento. Com base nos insights de Sandy Puspoyo, nosso Project Lead para Óleo de Palma e um experiente gestor de sustentabilidade com uma década de atuação prática na implementação de políticas NDPE, prontidão para certificações e implantação de sistemas de rastreabilidade na Indonésia, este conteúdo reúne orientações acionáveis para empresas que buscam construir cadeias de suprimentos transparentes, auditáveis e inclusivas para pequenos produtores.
A rastreabilidade tornou-se uma exigência central para empresas que operam nos mercados globais de óleo de palma. Certificações de sustentabilidade e regulamentações em evolução exigem cada vez mais que as empresas demonstrem de onde vem seu óleo de palma e como ele é produzido. Compradores, reguladores e organismos certificadores esperam evidências claras de que o óleo de palma é proveniente de terras legalmente detidas e está livre de desmatamento, conversão de turfeiras e outras práticas de alto risco.
Para atender a essas expectativas, as empresas precisam ser capazes de rastrear o óleo de palma até a plantação onde ele é cultivado. Esse é o papel da Rastreabilidade até a Plantação (TTP). A TTP fornece a base operacional para cadeias de suprimentos confiáveis, auditáveis e transparentes, apoiando a conformidade com esquemas de certificação e estruturas regulatórias, ao mesmo tempo em que fortalece a responsabilização ao longo da cadeia.
É importante destacar que a TTP funciona como um sistema habilitador, e não como uma solução de conformidade independente. Embora a rastreabilidade seja um componente exigido em diversos esquemas de certificação e regulamentações, ela não garante, por si só, a conformidade com padrões como compromissos NDPE ou obrigações regulatórias. Em vez disso, a TTP fornece os dados estruturados e a visibilidade da cadeia de custódia necessários para apoiar a avaliação de riscos, a verificação e a tomada de decisões ao longo da cadeia de suprimentos.

Na Koltiva, recomendamos uma abordagem sequencial de quatro etapas para alcançar visibilidade total da plantação até a entrega. Este framework é baseado na experiência prática das equipes de implementação de óleo de palma da Koltiva, incluindo insights de Sandy Puspoyo, Líder de Projeto para Óleo de Palma, que traz mais de dez anos de experiência trabalhando com as principais empresas de óleo de palma na Indonésia e na Koltiva. Seu trabalho abrange a implementação de NDPE, preparação para certificações e implantação de sistemas de rastreabilidade em cadeias de suprimento baseadas em pequenos produtores.
As quatro etapas a seguir descrevem como as empresas podem construir visibilidade de ponta a ponta, da plantação até a entrega, com o apoio de ferramentas digitais, práticas em nível de campo e lições aprendidas a partir da implementação no terreno:
O registro de plantações marca o ponto de partida da rastreabilidade e continua sendo uma das etapas mais desafiadoras nas cadeias de suprimento de óleo de palma. Com a produção global de óleo de palma atingindo 78,41 milhões de toneladas métricas em 2024 a 2025, de acordo com dados do USDA (USDA, n.d.), e os pequenos produtores respondendo por cerca de 40% da produção mundial (The Institute for Development of Economics and Finance, 2021), a coleta precisa de dados em nível de campo é essencial para apoiar cadeias de suprimento confiáveis e transparentes.
Nesta etapa, as empresas precisam de uma visão clara e verificada de:
Identidade do produtor
Localização da terra, capturada por meio de mapeamento por polígonos
Legalidade da terra, como títulos ou licenças de acordo com as regulamentações nacionais
Número de palmeiras e produtividade estimada
“Por que a legalidade da terra é necessária no TTP? As empresas geralmente implementam TTP para atender aos requisitos de certificação, como RSPO, ISPO ou ISCC. Como parte desses requisitos, informações sobre a legalidade da terra são comumente solicitadas aos produtores”, explica Sandy.
Dados confiáveis de plantações fornecem a base para todas as atividades subsequentes de rastreabilidade. Esquemas de certificação como Roundtable on Sustainable Palm Oil (RSPO) e International Sustainability and Carbon Certification (ISCC) dependem dessas informações para verificar a origem das matérias-primas e confirmar a conformidade legal. Por meio do KoltiTrace MIS FarmXtension, cooperativas e empresas podem digitalizar os limites das plantações, armazenar com segurança documentos de legalidade da terra e anexar evidências de suporte, incluindo fotografias e coordenadas de GPS.
“Do ponto de vista da implementação, começar pelas áreas de maior risco permite uma captura de dados mais clara e precisa no campo, o que é essencial para identificar lacunas e determinar onde são necessárias ações de remediação, suporte e orientação”, acrescenta Sandy.
Uma vez que as plantações estejam registradas, o próximo passo é rastrear os Cachos de Frutos Frescos (FFB) à medida que se deslocam das fazendas para as cooperativas e, posteriormente, para as usinas. É aqui que as cooperativas desempenham um papel crítico, atuando como o ponto de controle onde os dados em nível de plantação, os volumes de colheita e os registros de entrega se convergem. Idealmente, cada colheita seria identificada com informações que indiquem sua origem e proprietário após a pesagem no nível da cooperativa.
Na prática, a identificação individual dos frutos ainda é incomum no campo. No entanto, a rastreabilidade ainda pode ser alcançada de forma eficaz por meio da digitalização dos comprovantes de entrega de FFB (notas de FFB) e da vinculação de cada transação aos polígonos de plantações registradas. Ao conectar a documentação de TBS com os limites georreferenciados das fazendas, as empresas podem garantir a rastreabilidade até a plantação sem depender da identificação física de cada cacho individual.
Utilizando o FarmGate, as cooperativas podem digitalizar completamente os dados de entrega de FFB, criando um registro confiável de quanto FFB sai de cada plantação e chega à usina (um registro de transação estruturado e verificável). O sistema captura volumes e datas de entrega com precisão, vincula cada transação ao respectivo ID do polígono da plantação, identifica claramente o agricultor ou coletor e registra a confirmação de recebimento pela usina. Evidências de suporte, como fotos de comprovantes de pesagem (balança rodoviária) e registros de data e hora, fortalecem a cadeia de custódia e melhoram a precisão dos dados, garantindo a integridade das informações e possibilitando uma robusta Rastreabilidade até a Plantação (TTP) sem depender de processos manuais baseados em papel.
Essa etapa garante que cada remessa de FFB das cooperativas para as usinas possa ser rastreada até sua plantação de origem, reduzindo significativamente discrepâncias e aumentando a prontidão para auditorias de certificação e due diligence de compradores.
As principais informações capturadas nesta etapa incluem:
Data de entrega e tonelagem
ID do polígono de origem e remetente
Confirmação de recebimento pela usina
No nível da usina, o foco passa para as atividades operacionais de processamento, enquanto a rastreabilidade continua sendo igualmente importante. Uma vez que o FFB chega à usina, as empresas devem garantir que os registros de processamento sejam digitalizados, acessíveis e auditáveis ao longo de toda a cadeia de suprimentos.
Aqui, a rastreabilidade diz respeito à continuidade dos dados, ou seja, ao acompanhamento e à documentação das informações em todas as atividades de processamento, em vez de segregar fisicamente cada lote. Utilizando o FarmGate, as usinas podem registrar volumes de entrada, atividades de processamento e fluxos de rastreabilidade em nível de lote, vinculando cada lote processado às suas plantações de origem. Nesta etapa, as empresas também precisam decidir como gerenciar matéria-prima certificada e não certificada, mantendo registros de entrada, dados de processamento e saídas de produção transparentes, consistentes e auditáveis.
Do ponto de vista operacional, algumas usinas aplicam a segregação física ao separar FFB de fontes conformes e não conformes, enquanto outras utilizam a abordagem de balanço de massa, combinando a matéria-prima enquanto acompanham as proporções (por exemplo, 60% certificada e 40% não certificada). Ambas as abordagens são aceitas pelos esquemas de certificação, desde que sejam documentadas de forma transparente e conciliadas de maneira consistente.
Esta etapa é fundamental para a conformidade com RSPO, ISCC e outros padrões de sustentabilidade, garantindo que as alegações de sustentabilidade permaneçam confiáveis e verificáveis durante auditorias.
A rastreabilidade deve se estender além do portão da usina para alcançar visibilidade total em toda a cadeia de suprimentos. Para empresas que atuam em mercados regulados, a rastreabilidade em nível de remessa, vinculada a dados verificados de origem a montante, é obrigatória. Também é necessário acompanhar a logística, seguindo os produtos de óleo de palma das usinas até as refinarias e os pontos finais de entrega.
Por meio do KoltiTrace MIS, dados logísticos como identificadores de transporte (por exemplo, número da embarcação, destino, data de entrega) e documentos de suporte podem ser registrados e vinculados às informações de lotes e plantações a montante. Ao estruturar esses dados em um único sistema, as empresas criam um registro contínuo de rastreabilidade que conecta o movimento físico aos dados de origem verificados.
Esse nível de visibilidade de ponta a ponta apoia processos regulatórios como o Regulamento da União Europeia sobre Desmatamento (EUDR), que exige informações de due diligence para cada remessa que entra na UE. As empresas devem ser capazes de demonstrar rastreabilidade, avaliação de risco e evidências documentadas ao longo de toda a cadeia de suprimentos, e não apenas em um único ponto da jornada.

Embora a Rastreabilidade até a Plantação (TTP) gere valor de longo prazo para a transparência e a conformidade das cadeias de suprimento, sua implementação frequentemente revela desafios estruturais e operacionais, especialmente nos níveis a montante.
Lacunas na legalidade da terra
Um desafio comum surge no nível da plantação, onde muitos pequenos produtores cultivam palma em terras sem documentação completa ou formal. Em alguns casos, os títulos de propriedade ainda estão em processo; em outros, os limites se sobrepõem a áreas florestais ou carecem de registro oficial. Essas lacunas podem atrasar os esforços de rastreabilidade e complicar avaliações de certificação ou due diligence. Abordar a legalidade da terra, portanto, exige verificação antecipada, padrões claros de documentação e coordenação em nível de cooperativa para ajudar os produtores a compreender e, gradualmente, atender aos critérios exigidos.
Sistemas de dados manuais ou imaturos
Em muitas cooperativas, os dados de rastreabilidade ainda são registrados manualmente, muitas vezes sem formatos padronizados ou validação consistente. O acesso limitado a instalações de pesagem, a fragmentação dos registros e a dependência de comprovantes de entrega em papel aumentam o risco de inconsistências nos dados e de lacunas entre plantações, colheitas e entregas. A digitalização desses processos ajuda a criar registros estruturados, melhora a continuidade dos dados entre os atores da cadeia de suprimentos e fortalece a prontidão para auditorias ao longo do tempo.
Restrições de campo e logísticas
Limitações práticas no campo também afetam a qualidade dos dados. Localizações remotas das plantações, conectividade limitada e desafios de transporte podem atrasar o envio de dados ou resultar em registros incompletos. Sem fluxos de trabalho alinhados entre produtores, cooperativas e usinas, os sistemas de rastreabilidade podem ter dificuldades para refletir os movimentos operacionais reais.
Em conjunto, esses desafios evidenciam que a TTP não é um exercício técnico isolado, mas um processo gradual que depende da prontidão dos dados, da coordenação entre os atores e de uma implementação realista no nível de campo.
A rastreabilidade apoia tanto a conformidade quanto os objetivos comerciais ao longo da cadeia de suprimentos de óleo de palma:
Requisitos de certificação
Esquemas de certificação como a Roundtable on Sustainable Palm Oil (RSPO) e a International Sustainability and Carbon Certification (ISCC) exigem a rastreabilidade como um elemento central para demonstrar o abastecimento sustentável e permitir o acesso a mercados internacionais.
Due diligence regulatória
Regulamentações como o Regulamento da União Europeia sobre Desmatamento (EUDR) dependem de dados confiáveis e verificáveis da cadeia de suprimentos. As empresas devem ser capazes de fornecer informações de rastreabilidade como parte da due diligence em nível de remessa para acesso ao mercado.
Clareza operacional
A rastreabilidade digitalizada melhora a consistência dos dados, reduz discrepâncias e apoia uma coordenação mais clara entre produtores, cooperativas, usinas e atores a jusante.
Engajamento de pequenos produtores
Dados estruturados de rastreabilidade ajudam a estabelecer expectativas mais claras, apoiam os processos de documentação e fortalecem as relações de trabalho com pequenos produtores ao longo do tempo.
“Essas etapas não garantem diretamente a conformidade com NDPE ou EUDR”, observa Sandy, “mas a rastreabilidade é um elemento obrigatório para certificações e processos regulatórios como RSPO ou EUDR, o que torna o TTP essencial.”
A Rastreabilidade até a Plantação é construída passo a passo, começando na plantação e se estendendo pela logística até a entrega. Quando implementada de forma consistente, permite que as empresas atendam às expectativas de sustentabilidade, aos requisitos de certificação e às obrigações de due diligence com maior confiança.
À medida que o escrutínio regulatório aumenta e as expectativas do mercado evoluem, as empresas que investem hoje em sistemas de rastreabilidade estão mais bem posicionadas para se adaptar no futuro.
Se você deseja se aprofundar em estratégias de implementação, requisitos de dados e desafios de campo, participe do próximo webinar da Koltiva, onde nossos especialistas compartilharão insights práticos de projetos de rastreabilidade de óleo de palma em diferentes regiões de origem.
Autor: Gusi Ayu Putri Chandrika Sari, Social Media Practitioner na KOLTIVA
Especialista: Sandy Puspoyo, Project Lead de Óleo de Palma na KOLTIVA
Gusi Ayu Putri Chandrika Sari combina sua expertise em marketing digital e mídias sociais com um forte compromisso com a sustentabilidade, apoiada por mais de oito anos de experiência em comunicação. Seu trabalho é focado na criação de narrativas impactantes que conectam tecnologia, agricultura e responsabilidade ambiental. Ela é movida pela paixão de promover práticas sustentáveis por meio de conteúdos envolventes e centrados no público em diversas plataformas digitais.
Sandy Puspoyo é um profissional de meio ambiente e sustentabilidade com sólida experiência em conservação da biodiversidade, ecologia florestal e práticas responsáveis de uso da terra, trazendo experiência prática em avaliações de Alto Valor de Conservação (HCV) e HCSA em toda a Indonésia. Com formação em ciências ecológicas e engajamento de stakeholders, ele contribuiu para processos de certificação como RSPO por meio de mapeamento participativo e avaliações de campo, e na Koltiva trabalha diretamente com pequenos produtores independentes de óleo de palma — oferecendo treinamentos e capacitação em Boas Práticas Agrícolas (GAP), padrões RSPO e temas-chave como FPIC, HCV/HCS, gestão de resíduos e alfabetização financeira, além de orientá-los em todo o processo de certificação, desde a preparação de documentos até o suporte em auditorias; anteriormente, liderou um projeto de rastreabilidade em Kalimantan Oriental, gerenciando equipes de campo para mapear e verificar mais de 1.000 parcelas de pequenos produtores, contribuindo para garantir a legalidade da terra e fortalecer cadeias de suprimento transparentes.
Recursos:
United States Department of Agriculture, Foreign Agricultural Service. (n.d.). Production – Palm oil (Commodity 4243000). https://www.fas.usda.gov/data/production/commodity/4243000
Hasan, F., Ahmad, T., Fahmid, M. M., & Fadhil, I. (2021). Reducing poverty, improving sustainability: Palm oil smallholders are key to meeting the UN SDGs (INDEF Working Paper No. 1/2021). The Institute for Development of Economics and Finance (INDEF). https://indef.or.id/wp-content/uploads/2023/03/Working-Paper-Reducing-Poverty-Improving-Sustainability-Palm-Oil-Smallholders-are-Key-to-Meeting-the-UN-SDGs.pdf
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